É possível escapar do arrependimento? #01
- Mayra Mendes
- 13 de mai. de 2025
- 4 min de leitura
O que o filósofo Kierkegaard diz sobre o ato de se arrepender
Quantas vezes você já olhou para o passado e se perguntou como seria sua vida hoje se tivesse feito escolhas diferentes, que talvez te levassem a uma vida mais plena e feliz? Posso dizer que, por aqui, perdi a conta.
Nossa mente é habilidosa em criar fantasias do que poderia ter sido. Facilmente projetamos no caminho não escolhido todos os nossos anseios e visualizamos um futuro idealizado, quase perfeito. Mas esquecemos que esse caminho não é real, é apenas uma construção da nossa imaginação. E se tivéssemos escolhido de outra forma, talvez estivéssemos agora fantasiando o oposto: idealizando a rota que de fato tomamos e que hoje tanto questionamos.
Ao olhar para o passado com os olhos do presente, ignoramos que toda escolha é feita com a consciência e o conhecimento que temos naquele momento, e não com o que sabemos agora. E, ao imaginar uma vida diferente, negligenciamos que qualquer caminho é incerto, cheio de possibilidades e riscos.
A questão do arrependimento é central no pensamento de Søren Kierkegaard, o filósofo dinamarquês que é considerado um dos pais do existencialismo.

Kierkegaard foi um pensador profundamente interessado nas escolhas humanas, nas angústias que surgem da liberdade e na constante possibilidade de arrependimento. Sua vida, marcada por um intenso diálogo interno sobre a fé, a liberdade e as decisões pessoais, levou-o a questionar o que significa viver autenticamente em um mundo cheio de incertezas.
O filósofo defendia que viver é uma tarefa individual e difícil, na qual somos forçados a tomar decisões constantemente. (aqui um adendo: por ser individual, não deixe que outra pessoa diga o que você deveria ter feito. A sua vida não é dela). A famosa citação “Escolha isso ou aquilo, você irá se arrepender” reflete sua visão de que o arrependimento é, de certa forma, inevitável. Isso porque, para ele, a vida é feita de escolhas — e cada escolha implica uma renúncia (Pois é, não temos como fugir disso). Toda vez que optamos por um caminho, estamos inevitavelmente renunciando a outro, e com isso pode surgir o arrependimento. Mas será que isso é algo negativo? Ou podemos encarar o arrependimento de outra maneira?
Para Kierkegaard, a escolha é uma manifestação de nossa liberdade, e o arrependimento é um reflexo dessa liberdade. Quando nos arrependemos, é um sinal de que exercemos nosso poder de decisão, de que agimos e tomamos o controle sobre nossa vida. O arrependimento, então, pode ser visto como um indicador de que vivemos autenticamente (ou de que simplesmente vivemos.) — afinal, se não tivéssemos tomado uma decisão, não haveria do que nos arrepender. Nessa perspectiva, o arrependimento não é um fardo a ser evitado, mas uma parte intrínseca da vida. Ele [o arrependimento] nos lembra que estamos vivos, que nossas ações têm peso e consequência, além de carregar em si o potencial de aprendizado e transformação. Afinal, se refletimos sobre nossas escolhas iremos nos confrontar com quem éramos no momento daquela decisão, com as motivações e contextos que nos levaram até lá. Ao fazermos isso, nos damos a oportunidade de crescer, de entender melhor nossos valores e desejos e de nos reinventarmos.
Na terapia, essa reflexão ganha uma nova dimensão. O arrependimento pode se transformar em um processo de conhecimento de si mesmo. Não se trata de ver nossas escolhas como erros a serem corrigidos, mas como partes da nossa trajetória. Em terapia, somos convidados a acolher o que foi e o que é, sem julgar ou idealizar o que poderia ter sido. Kierkegaard sugere que a vida é um constante movimento de autocriação, e, nesse processo, o arrependimento deixa de ser um peso para se tornar uma oportunidade de reconciliação com a própria história.
Que tal encararmos o arrependimento como algo que, em vez de nos aprisionar ao passado, nos impulsiona para o que está por vir? Ele nos desafia a aceitar que a vida não é sobre escolhas perfeitas, mas sobre as escolhas que fazemos e o que aprendemos com elas. A vida, afinal, não é sobre o que poderia ter sido, mas sobre o que ainda pode ser.
“O arrependimento deixa de ser um peso para se tornar uma oportunidade de reconciliação com a própria história.”
Søren Kierkegaard foi um filósofo que viveu em constante diálogo com suas próprias angústias e contradições, e é por isso que suas reflexões ressoam até hoje. Ele nos lembra de que viver é arriscar, e que o arrependimento é uma parte natural e inevitável desse risco. No entanto, se conseguirmos enxergar isso como uma oportunidade de aprendizado, o arrependimento deixa de ser um fardo e se torna um caminho para uma vida mais plena e consciente.
A vida não se trata das escolhas perfeitas, mas do que fazemos com as escolhas que fazemos. ;)
Para ampliar o tema:
Søren Kierkegaard (1813–1855) foi um filósofo dinamarquês, considerado por muitos o pai do existencialismo. Suas obras abordam questões profundas sobre a existência humana, a fé, a liberdade e as escolhas individuais. Kierkegaard acreditava que viver autênticamente envolvia tomar decisões corajosas, mesmo diante da incerteza e do arrependimento. Seu livro mais conhecido, O Desespero Humano, explora o conceito de desespero como parte essencial da condição humana e da busca pela autenticidade.

Um beijo afetuoso,
Mayra Mendes
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